Longevity & AgingArtigo CientíficoAcesso Aberto

A Terapia com Albumina Não Reduz o Risco de Morte em 90 Dias em Pacientes com Choque Séptico

Um ECR multicêntrico com 440 pacientes conclui que a reposição de albumina é segura, mas incapaz de reduzir significativamente a mortalidade em comparação com o cuidado padrão com cristaloides.

segunda-feira, 18 de maio de 2026 0 visualização
Publicado em JAMA Netw Open
Close-up of IV albumin infusion bag connected to tubing in a dimly lit ICU, vital monitor glowing in background.

Resumo

O ensaio ARISS randomizou 440 adultos com choque séptico em 23 UTIs alemãs para receber albumina humana a 20% (com alvo de albumina sérica ≥3,0 g/dL por até 28 dias) ou terapia padrão com fluidos cristaloides. A mortalidade em 90 dias foi de 43,3% no grupo albumina versus 45,9% nos controles — uma diferença não significativa (RR 0,94; IC 95% 0,76–1,17; P=0,71). Nenhum desfecho secundário, incluindo escores de falência orgânica, duração da internação na UTI ou balanço hídrico, diferiu de forma relevante entre os grupos. O ensaio foi encerrado precocemente devido a baixas taxas de recrutamento, tornando os resultados estatisticamente inconclusivos. A albumina pareceu segura, sem excesso de eventos adversos, mas seu benefício para a sobrevivência no choque séptico permanece não comprovado.

Resumo Detalhado

O choque séptico é uma condição com risco de vida, com taxas de mortalidade superiores a 40%, e há um interesse duradouro em saber se a albumina — além de seu papel oncótico — poderia reduzir a disfunção orgânica e a morte por meio de propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e moduladoras do óxido nítrico. Dados anteriores, incluindo um sinal em subgrupo do estudo SAFE e uma análise secundária do estudo ALBIOS, sugeriram uma possível vantagem de sobrevida com albumina em pacientes com choque séptico, motivando este ensaio dedicado ao tema.

O ensaio ARISS (Albumin Replacement in Septic Shock) foi um ensaio clínico randomizado prospectivo, aberto e multicêntrico, conduzido em 23 UTIs na Alemanha entre outubro de 2019 e maio de 2022. Adultos diagnosticados com choque séptico nas últimas 24 horas eram elegíveis; pacientes com prognóstico terminal, decisões de fim de vida ou condições nas quais a albumina é contraindicada ou especificamente indicada (por exemplo, síndrome hepatorrenal) foram excluídos. Os pacientes foram randomizados na proporção 1:1 para receber uma dose de ataque de 60 g de albumina a 20%, seguida de infusões diárias tituladas (40–80 g) para manter a albumina sérica ≥3,0 g/dL por até 28 dias de UTI, ou para o manejo hídrico padrão baseado em cristaloides.

Dos 440 pacientes randomizados (mediana de idade de 69 anos; 65,9% do sexo masculino), 222 receberam albumina e 218 receberam cuidado padrão. As características basais eram comparáveis entre os grupos. O desfecho primário — mortalidade por todas as causas em 90 dias — foi de 43,3% (91/210) no grupo albumina versus 45,9% (96/209) nos controles, resultando em um risco relativo de 0,94 (IC 95%, 0,76–1,17; P=0,71). Não foram observadas diferenças estatisticamente significativas nos desfechos secundários, incluindo mortalidade em 28, 60 dias, na UTI e hospitalar; escores de disfunção orgânica SOFA; balanço hídrico total; ou tempo de internação na UTI e hospitalar. A albumina foi bem tolerada, sem eventos adversos excessivos atribuídos ao tratamento.

É importante destacar que o ensaio foi encerrado prematuramente devido a baixas taxas de recrutamento — consequência agravada pelas interrupções causadas pela pandemia de COVID-19. O tamanho amostral original foi calculado para detectar uma redução clinicamente relevante na mortalidade, e os 440 pacientes recrutados representam uma coorte com poder estatístico insuficiente em relação a essa meta. Os autores reconhecem que os resultados são, portanto, estatisticamente inconclusivos e não permitem descartar definitivamente um benefício clínico modesto da terapia com albumina.

Para a prática clínica, esses achados sugerem que a reposição de albumina no choque séptico é segura, mas não deve ser considerada terapia padrão com base nas evidências atuais. Os autores solicitam ensaios clínicos randomizados adicionais e adequadamente dimensionados — idealmente com critérios refinados de seleção de pacientes — antes que a albumina possa ser recomendada ou descartada para essa indicação. Diante dos custos e das implicações em termos de recursos das infusões de albumina, a incerteza permanece, e a tomada de decisão clínica deve continuar a seguir as recomendações das diretrizes vigentes até que novas evidências estejam disponíveis.

Principais Descobertas

  • 90-day mortality was 43.3% (albumin) vs 45.9% (controls); not statistically significant (P=.71).
  • No significant differences found in secondary endpoints including organ failure, ICU stay, or fluid balance.
  • Albumin replacement targeting ≥3.0 g/dL for 28 ICU days was safe with no excess adverse events.
  • Trial terminated early due to low enrollment, rendering results statistically underpowered and inconclusive.
  • Baseline characteristics were well matched, supporting internal validity of the comparison.

Metodologia

Ensaio clínico randomizado (ECR) prospectivo, aberto, multicêntrico, na proporção 1:1, conduzido em 23 UTIs alemãs; 440 adultos com choque séptico randomizados para albumina a 20% (alvo ≥3,0 g/dL, por até 28 dias) ou terapia padrão com cristaloides. A randomização foi estratificada por nível de lactato e centro; o desfecho primário foi a mortalidade por todas as causas em 90 dias, avaliada na população modificada por intenção de tratar.

Limitações do Estudo

O ensaio foi encerrado prematuramente devido ao baixo recrutamento — provavelmente agravado pela COVID-19 — resultando em poder estatístico insuficiente para detectar uma diferença de mortalidade clinicamente significativa. O desenho aberto introduz potencial viés de desempenho, e o grupo controle teve permissão para receber albumina a critério das diretrizes, o que pode ter atenuado as diferenças entre os grupos.

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