Longevity & AgingArtigo CientíficoAcesso Aberto

Prescrições de Exercício para Insuficiência Cardíaca Validadas em Novas Diretrizes Clínicas Brasileiras

As diretrizes da ASSOBRAFIR utilizam a metodologia GRADE para classificar o HIIT, o treinamento resistido, o treinamento muscular inspiratório e o NMES na reabilitação de pacientes com insuficiência cardíaca.

quinta-feira, 9 de julho de 2026 1 visualização
Publicado em Braz J Phys Ther
A physical therapist guiding a heart failure patient on a treadmill in a bright clinical rehabilitation gym with monitoring equipment.

Resumo

A ASSOBRAFIR (Associação Brasileira de Fisioterapia Cardiorrespiratória e Fisioterapia em Terapia Intensiva) publicou diretrizes baseadas em evidências sobre treinamento físico para reabilitação ambulatorial de pacientes com insuficiência cardíaca. Utilizando a metodologia GRADE e meta-análises de ensaios randomizados publicados desde 2009, o painel avaliou quatro modalidades de exercício. Principais descobertas: o HIIT e o treinamento contínuo de intensidade moderada (MICT) são igualmente eficazes; o treinamento resistido de intensidade moderada supera o de baixa intensidade, especialmente na ICFEp; o treinamento muscular inspiratório de alta intensidade melhora a força dos músculos respiratórios mais do que o de baixa intensidade; e a estimulação elétrica neuromuscular (NMES) supera o placebo ou o tratamento habitual, mas não acrescenta benefício quando somada ao treinamento aeróbico isolado. Todas as recomendações foram condicionais, com nível de certeza da evidência baixo a muito baixo, refletindo a necessidade de ensaios maiores e de maior qualidade para fortalecer as orientações destinadas a essa população vulnerável.

Resumo Detalhado

A insuficiência cardíaca (IC) afeta milhões de pessoas em todo o mundo e está associada a alta morbidade, mortalidade e redução da qualidade de vida. A reabilitação cardíaca baseada em exercícios é um pilar fundamental do tratamento; no entanto, a variabilidade na estruturação dos programas — especialmente no Brasil, onde fisioterapeutas frequentemente lideram a reabilitação — criou a necessidade de diretrizes padronizadas e baseadas em evidências. A ASSOBRAFIR (Associação Brasileira de Fisioterapia Cardiorrespiratória) reuniu um painel multidisciplinar de especialistas para suprir essa lacuna.

O painel de diretrizes seguiu os frameworks da Guidelines International Network (GIN) e AGREE-II para rigor metodológico. As evidências foram sintetizadas por meio de meta-análises de ensaios clínicos randomizados publicados a partir de 2009, e a certeza das evidências (CoE) e a força das recomendações foram graduadas pelo método GRADE. Quatro questões clínicas foram abordadas, cobrindo as modalidades de treinamento aeróbico, resistido, muscular inspiratório e estimulação elétrica neuromuscular (NMES) em pacientes ambulatoriais clinicamente estáveis com fração de ejeção reduzida ou preservada (HFrEF e HFpEF).

Para o treinamento aeróbico, o painel constatou que o treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT) e o treinamento contínuo de intensidade moderada (MICT) são equivalentes em desfechos (recomendação condicional, CoE baixa). Essa equivalência oferece ao clínico flexibilidade para individualizar o treinamento com base na preferência, tolerância e capacidade funcional do paciente. Para o treinamento resistido, o treinamento resistido de intensidade moderada (MIRT) mostrou-se mais eficaz do que o treinamento resistido de baixa intensidade (LIRT), especialmente em pacientes com HFpEF (recomendação condicional, CoE muito baixa). Essa distinção tem relevância clínica, pois a HFpEF historicamente carece de prescrições de exercício baseadas em evidências sólidas.

Em relação ao treinamento muscular inspiratório (IMT), o IMT de alta intensidade foi superior ao de baixa intensidade na melhora da força e da resistência dos músculos inspiratórios (recomendação condicional, CoE muito baixa). Isso apoia a adoção de cargas de treinamento mais elevadas na prescrição do IMT, modalidade particularmente relevante para pacientes com IC que apresentam fraqueza da musculatura respiratória. Para a NMES, emergiram duas sub-recomendações: a NMES é mais eficaz do que placebo de NMES ou atividades habituais (recomendação condicional, CoE baixa); porém, adicionar NMES ao treinamento aeróbico não confere benefício adicional em relação ao treinamento aeróbico isolado (recomendação condicional, CoE baixa).

Todas as recomendações foram condicionais — e não fortes —, refletindo certeza de evidência baixa a muito baixa, uma limitação inerente ao atual cenário de ensaios em reabilitação cardíaca na IC. As diretrizes fornecem, ainda assim, um framework estruturado capaz de orientar a tomada de decisão clínica, ao mesmo tempo em que destacam onde o investimento em pesquisas futuras é mais necessário. Essas recomendações são especialmente relevantes para contextos de saúde de média e baixa renda, onde a alocação de recursos e a padronização de protocolos podem impactar significativamente os desfechos dos pacientes.

Principais Descobertas

  • HIIT and MICT produce equivalent outcomes in HF rehabilitation; both are conditionally recommended.
  • Moderate-intensity resistance training outperforms low-intensity resistance training, especially in HFpEF.
  • High-intensity inspiratory muscle training improves respiratory muscle strength more than low-intensity IMT.
  • NMES is superior to placebo or usual care but adds no benefit when combined with aerobic training.
  • All recommendations are conditional with low to very low certainty of evidence, signaling need for larger trials.

Metodologia

O painel de diretrizes aplicou os frameworks GIN e AGREE-II e utilizou o sistema GRADE para avaliar a certeza das evidências. As recomendações foram derivadas de metanálises de ensaios clínicos randomizados publicados desde 2009, com foco em populações ambulatoriais clinicamente estáveis com insuficiência cardíaca tanto com fração de ejeção reduzida quanto preservada.

Limitações do Estudo

Todas as recomendações são condicionais, com baixa a muito baixa certeza de evidência, o que limita a formulação de orientações definitivas. A base de evidências é proveniente de metanálises de ECRs heterogêneos, o que pode mascarar efeitos específicos em determinadas populações. A generalização fora do contexto de saúde do Brasil e para subtipos diversos de insuficiência cardíaca requer investigação adicional.

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