O Jejum Prolongado Pode Aumentar a Inflamação, Não Diminuí-la
Uma revisão de escopo de 14 ensaios clínicos constata que o jejum por mais de 48 horas frequentemente aumenta a PCR, a IL-6 e o TNF-α — contestando as alegações anti-inflamatórias amplamente difundidas.
Resumo
Uma abrangente revisão de escopo publicada na revista Ageing Research Reviews analisou 14 ensaios clínicos em humanos para avaliar como o jejum prolongado (48 horas ou mais) afeta biomarcadores inflamatórios importantes, incluindo CRP, IL-6 e TNF-α. Ao contrário da crença amplamente difundida de que o jejum estendido reduz a inflamação, a maioria dos estudos relatou ausência de alteração ou até mesmo aumento desses marcadores durante o jejum — especialmente a CRP, que elevou-se significativamente em pessoas com sobrepeso ou obesidade. Vale destacar que os níveis de CRP frequentemente se normalizaram após a realimentação, sugerindo que a resposta inflamatória pode ser transitória ou adaptativa, e não necessariamente prejudicial. A revisão aponta inconsistências importantes entre os estudos, decorrentes de variações nas durações do jejum, nas populações estudadas e nos protocolos utilizados, e apela pela realização de ensaios clínicos randomizados e controlados rigorosos para esclarecer os efeitos a longo prazo.
Resumo Detalhado
O jejum prolongado ganhou popularidade significativa como estratégia de longevidade e saúde metabólica, com seus defensores afirmando que ele reduz poderosamente a inflamação crônica — um dos principais impulsionadores do envelhecimento e das doenças. No entanto, a base de evidências real para essa afirmação nunca foi rigorosamente sintetizada, deixando clínicos e o público em geral sem orientações confiáveis.
Esta revisão de escopo, conduzida por pesquisadores da Universidade de Sydney e publicada na revista Ageing Research Reviews, pesquisou sistematicamente cinco grandes bases de dados e identificou 14 ensaios clínicos humanos revisados por pares que examinaram os efeitos do jejum prolongado (≥48 horas) em três biomarcadores inflamatórios estabelecidos: proteína C-reativa (CRP), interleucina-6 (IL-6) e fator de necrose tumoral alfa (TNF-α). A revisão seguiu as diretrizes PRISMA-ScR para garantir rigor metodológico.
Os resultados desafiam a narrativa popular. A maioria dos estudos incluídos relatou ausência de mudança significativa ou aumento nos biomarcadores inflamatórios durante os períodos de jejum prolongado. A CRP — o marcador mais frequentemente medido — aumentou, muitas vezes de forma significativa, particularmente em participantes com sobrepeso ou obesidade. Aumentos de TNF-α e IL-6 também foram observados em alguns estudos, embora com menor consistência entre os ensaios.
Uma nuance potencialmente importante emergiu: vários estudos observaram que os níveis elevados de CRP retornaram ao normal ou diminuíram após a realimentação. Isso sugere que a resposta inflamatória induzida pelo jejum pode ser transitória ou representar um mecanismo fisiológico adaptativo — talvez análogo ao estresse hormético — em vez de um sinal de inflamação patológica.
A revisão alerta que as evidências permanecem limitadas e inconsistentes, moldadas por ampla variação na duração do jejum, no estado de saúde dos participantes e no desenho dos estudos. Os autores defendem a realização de ensaios clínicos randomizados e controlados bem delineados, com protocolos padronizados em populações diversas, para avaliar adequadamente o impacto a longo prazo do jejum prolongado sobre a inflamação e as doenças metabólicas.
Principais Descobertas
- Most of 14 clinical trials found prolonged fasting (≥48 h) caused no change or an increase in CRP, IL-6, or TNF-α.
- CRP rose significantly during fasting, especially in individuals with overweight or obesity.
- CRP often normalized after refeeding, suggesting the inflammatory response may be transient or adaptive.
- Evidence is inconsistent across studies due to differing fasting durations, populations, and protocols.
- No standard fasting protocol exists; randomized controlled trials are urgently needed.
Metodologia
Esta é uma revisão de escopo sistemática seguindo as diretrizes PRISMA-ScR, com buscas realizadas no PubMed, Medline, Web of Science, Embase e Scopus para estudos publicados até agosto de 2024. Foram incluídos apenas ensaios clínicos humanos revisados por pares que examinaram os efeitos do jejum prolongado sobre marcadores inflamatórios, resultando em 14 estudos elegíveis.
Limitações do Estudo
Apenas 14 estudos atenderam aos critérios de inclusão, refletindo uma base de evidências escassa e heterogênea. A variação significativa na duração do jejum, nas características dos participantes e nos métodos de mensuração dos desfechos limita as comparações entre estudos. Não existem atualmente ensaios clínicos randomizados controlados com protocolos padronizados, o que impede conclusões definitivas.
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